Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
19.08.2004 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de 55 anos, nascida numa pequena cidade do interior nordestino, tendo começado a trabalhar já aos cinco anos para ajudar na sobrevivência da família, separada, de baixa estatura e corpulenta, chamava a atenção por sua aparência descuidada, pelo excesso de pelos em seu rosto, sempre despenteada e vestida com roupas velhas e fora de moda. Todo esse quadro piorava por conta do aspecto que a doença lhe conferia: a pele de todo o corpo muito ressecada, descamando continuamente e formando um depósito de fragmentos que se espalhavam por todo o ambiente. Casou-se aos 21 anos “sem saber o porquê”, teve 3 filhos e está separada há 3 anos. Viveu a separação como uma grande humilhação e desde então nunca mais se interessou em ter um companheiro. Embora soubesse das traições do marido e se sentisse só devido à falta de interesse pessoal e sexual dele, nunca pensara em separar-se.
Foi internada com o diagnóstico de eritrodermia esfoliativa por psoríase e teve cinco atendimentos com um dos membros da unidade de Psicologia Médica do C.M.P. integrada à equipe da enfermaria. Inicialmente relacionou o surgimento de sua doença com a primeira traição do marido, há 15 anos. De acordo com suas próprias palavras "depois disso nunca mais tive saúde". Nos primeiros atendimentos esteve sempre muito calada; na enfermaria era reservada, limitava-se a fazer o que lhe pediam sem questionar e sua expressão era entristecida. No primeiro atendimento seu tom de voz era quase inaudível e seu olhar manteve-se, por muito tempo, fixo em suas mãos. As conversas acabaram se encaminhando para as dificuldades dela com a sexualidade e, a partir deste ponto, seu comportamento mudou: ficou mais interessada, mais participativa na enfermaria e houve uma melhora significativa do seu quadro clínico. Revelou também que fora intimada a comparecer em Juízo por conta do pedido de divórcio do ex-marido poucos dias antes de se internar. Saiu de alta pensando em retomar sua vida afetiva e mais decidida a enfrentar o divórcio.

O primeiro tema a ser discutido foi a relação entre o aspecto repulsivo das doenças dermatológicas, a rejeição alheia, a auto e a hetero estigmatização. Em seguida passou-se a discutir a relação observada entre algumas doenças dermatológicas (psoríase, vitiligo, prurido e eczema) e a existência de uma incapacidade de elaborar a vida sexual. A freqüência com que a pele expressa falhas muito precoces no relacionamento mãe-bebê foi assinalada e foi ressaltado que estas falhas nas relações primitivas costumam induzir a um édipo precoce, o que é sempre potencialmente desorganizador para a mente. Encerrou-se a reunião com a discussão sobre o aspecto melancólico que a paciente apresentava.

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