Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
15.07.2004 Dra. Anna Sanders Quental

Uma mulher de 58 anos, casada, há um ano começou a sentir dores de cabeça, labirintite e a queixar-se de ter ficado com a memória fraca. Atualmente não consegue mexer as pernas e queixa-se de depender das pessoas. Foi internada para submeter-se a tratamento cirúrgico de um neurinoma do acústico e hidrocefalia. Criada com suas irmãs e irmãos pelo pai e tias desde seus 7 anos, só soube que a mãe não havia morrido quando com 20 anos. Durante a internação apresentou um quadro constituído por idéias de cunho persecutório e alterações sensoperceptivas, visuais e olfativas. Após a cirugia, realizada com sucesso, o quadro de desorganização mental se agravou. A paciente se tornou mais angustiada, surgiram idéias delirantes de envenenamento e os episódios alucinatórios exacerbaram-se, tudo girando em torno da certeza da morte de seus familiares.

Por ser um caso limite entre a neurologia e a psiquiatria, o debate se iniciou com a discussão acerca do diagnóstico do quadro psicopatológico apresentado pela paciente. Ficou-se em dúvida se antes da cirurgia a sintomatologia era delirante (psicótica) ou deliróide (histriônica) e se os episódios de alteração da sensopercepção seriam alucinatórios (psicóticos) ou de alucinose (psico-orgânicos), embora houvesse consenso que, depois da cirurgia, o quadro psicopatológico foi francamente delirante, portanto psicótico. Nestes casos, proceder-se ao diagnóstico diferencial entre um quadro psicótico funcional e um sindrome psico-orgânico é de crucial importância para o correto encaminhamento do tratamento. E, para este fim, é fundamental saber-se se o quadro psicopatológico é anterior ou posterior ao aparecimento do quadro neurológico. Um dos procedimentos lembrados foi o de procurar obter informações a respeito da personalidade pré-mórbida através de interconsultas com a equipe médica e de consultas com a família.
Encerrou-se a discussão ressaltando-se que casos como este mostram o quanto a fala do paciente é sempre mais expressão do que informação, e que a abertura de espaço para o paciente se expressar é sempre importante, mas é fundamental uma ação psicodinâmica mais específica.

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