Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
08.07.2004 Dr. Decio Tenenbaum

Uma mulher de 29 anos, solteira, órfã de pai desde os 2 anos, foi internada para se submeter a uma tireoidectomia parcial por ser portadora de hipertireoideismo e bócio multinodular. Há 3 anos vinha sendo tratada como portadora de epilepsia por ter apresentado alguns poucos episódios de desmaios no qual ficava se debatendo (sic). Como mesmo tomando a medicação prescrita continuou “nervosa” e emagrecendo, “ficou indo de médico em médico” até que foi-lhe feito o diagnóstico de hipertireoidismo e encaminhada ao Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia, onde este diagnóstico foi confirmado e acrescido com o diagnóstico de nódulos na tireóide, motivo do seu encaminhamento à cirurgia.
Morando com a mãe, o padrasto e mais uma irmã e um irmão do segundo casamento da mãe, nunca se entendeu bem com esta “porque ela sempre me fere com as palavras”. Sentia-se melhor com a avó, já falecida há vários anos. Apesar de solícita com a equipe médica e interessada em operar-se o mais breve possível, o atendimento feito pela equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria evidenciou que a paciente não só não se sentia bem na presença do cirurgião devido à semelhança deste com seu padrasto como também tinha medo de ser operada por ter que ir sem a calcinha para o centro cirúrgico. Tais elementos fizeram a psicóloga suspeitar de abuso sexual por parte do padrasto, o que acabou sendo confirmado. A paciente falou de uma tentativa de suicídio no passado por desentendimento com a mãe e o aparecimento de uma tosse acabou adiando a cirurgia. Efetivamente a paciente não se sentia (e não estava ainda) em condições de ser operada e o adiamento possibilitou um melhor preparo psicológico dela.

A discussão foi iniciada com a observação de que não é raro a revivescência de traumas sexuais, tanto no sentido do abuso quanto no da angústia de castração, às vésperas da realização de procedimentos invasivos. Discutindo-se o atendimento feito, alguns entenderam que ele teve um duplo objetivo: trabalhar o medo da cirurgia e iniciar a elaboração do trauma sexual. Examinando-se melhor a situação, pôde-se constatar que ambos estão interligados e compõem a trama histérica relacionada com a interrupção da elaboração do conflito edípico, provavelmente pela perda paterna seguida pela experiência traumática com o padrasto. A erradicação deste tipo de contaminação irracional do campo terapêutico, que pode levar a desfechos inesperados e desfavoráveis, é o principal objetivo da Psicologia Médica. Devido ao importante componente histérico da paciente levantou-se a possibilidade do diagnóstico de epilepsia tem sido confundido com o de histeria, fato que também não é raro.
Em seguida discutiu-se a especificidade do atendimento da Psicologia Médica e fez-se a distinção deste tipo de trabalho, que visa a otimização do procedimento terapêutico, com o da Psicologia Hospitalar e o da Psiquiatria de Ligação.
A discussão foi encerrada apontando-se para a necessidade de mais estudo sobre a ocorrência de mau funcionamento do eixo hipotalâmico-hipofisário na presença deste tipo de conflito psicológico.

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