Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
17.06.2004 Dr. Decio Tenenbaum

Uma bonita mulher de 42 anos, casada há 17 anos, uma filha de 17 e um filho de 15 anos, foi internada com alopécia areata difusa. Professora, mais velha das 5 filhas e única a ainda residir em sua cidade natal, perto de seu pai e de sua madrasta. Perdeu a mãe quando com 14 anos. Há um mês e meio apresentou candidíase vaginal e há vinte dias sofreu uma perda abrupta de todos os cabelos e pelos do corpo acompanhada de parestesia nas pernas e mãos, manchas hipercrômicas nas axilas e pontas dos dedos. Todos os exames realizados estavam dentro dos limites normais de variação.  
Triste com a mudança em sua aparência, contou o quanto se orgulhava da beleza dos seus cabelos e usava um pequeno chapéu para disfarçar a ausência deles. Estava aflita com seu estado de saúde, preocupada com o fato dos exames estarem normais e com medo de não descobrirem o que tinha e acabar morrendo.
Contou que sua vida é bastante atribulada em sua cidade, pois além de lecionar e cuidar da casa e dos filhos, ajuda o marido em seu comércio nos finais de semana, mas começou a ficar estressada ao notar a "intimidade" que o marido tinha com a esposa do sócio. Relatou o quanto sofreu ao acompanhar o adoecimento da mãe logo depois que esta soube que o marido (pai da paciente) a estava traindo. A mãe acabou morrendo meses depois, aos 43 anos. A paciente estava com muito medo de ter o mesmo destino. Por uma destas coincidências da vida, a paciente estava com a mesma idade e passando pela mesma situação que sua mãe passou. Só faltava a morte para a identificação ser completa.

A discussão partiu da compreensão psicodinâmica de que uma situação real serviu como gatilho para a reativação da perda materna e da culpa edípica correlacionada empurrando a paciente para uma identificação mortal. Inicialmente, abordou-se a relação entre o aparecimento de fenômenos psicossomáticos e problemas havidos no estabelecimento dos vínculos afetivos básicos. Os trabalhos de Melanie Klein sobre a relação mãe-bebê, de John Bowlby sobre o vínculo de apego e Michael Balint sobre as falhas básicas foram lembrados como seminais no estudo da importância da relação diádica na estruturação do espaço de segurança, fundamental para o desenvolvimento do ego e para o funcionamento dos ritmos homeostáticos do organismo.
Foi ainda lembrado que, sendo o envoltório do corpo, a pele é também o elemento de contato com o ambiente e o mais importante instrumento erótico, servindo freqüentemente como palco para a expressão de conflitos. O conceito de sexualidade, assim como as diferenças entre narcisismo e vaidade, sobrevivência biológica e sobrevivência psicológica também foram discutidos. A reunião encerrou-se realçando a importância do vínculo terapêutico como instrumento adequado para se interromper este tipo de identificação.

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