Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
27.05.2004 Dra. Anna Sanders Quental

Enquanto se preparava para uma cirurgia de retirada de câncer no seio em uma das enfermarias do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, uma senhora de aproximadamente 63 anos internou-se em uma outra enfermaria do mesmo hospital devido a dores no peito. Nesta enfermaria foi diagnosticado quadro de angina estável e sua médica assistente solicitou que a equipe de psicologia médica a atendesse por achá-la deprimida.
Ao ser abordada por um dos membros da equipe de Psicologia Médica associada à enfermaria mostrou-se muito simpática, imediatamente agradecida pelo atendimento e com um tom de voz triste começou a falar, sempre usando os tempos verbais no passado, das tragédias de sua vida. Proveniente de uma pequena aldeia do interior do Brasil, “onde até passei fome e nunca tive nem uma boneca, brincava com osso de rabada”, criada por uma avó e quase não teve contato com sua mãe. Recentemente, ao falar com a mãe ao telefone praticamente não entendeu o que ela falava por não lembrar-se mais do idioma materno e ficou com medo de estar sendo xingada por ela. Há muitos anos não vê os familiares “porque sempre que eu juntava um dinheirinho acontecia alguma coisa: uma vez meu marido ficou doente, depois eu e no outro ano meu filho faleceu. Acho que não reconheceria mais as pessoas”. Começou a trabalhar aos 9 anos, “já fiz de tudo: tomei conta de criança, cozinhei, trabalhei em casa de madame e com eles vim para o RJ”. Aqui casou-se, morou muitos anos em favela, onde teve a casa alagada e várias vezes com risco de desabamento, teve 6 filhos e há poucos anos conseguiu mudar-se para uma casa um pouco melhor e fora de favela. Há 6 meses perdeu um dos filhos, o mais velho e seu preferido, criado de maneira diferente dos demais (sic).
Nas conversas que teve com sua terapeuta ficou parecendo que a morte esteve presente em sua vida desde a infância e agora ainda mais com a sua doença, a morte do filho querido e o quadro agudo de angina que estava apresentando. Ela própria dizia que a perda do filho havia lhe provocado “uma tristeza que não vai embora nunca”. O tom de lamento em sua fala aumentava a impressão de que a paciente parecia estar se despedindo da vida. A paciente recebeu alta após fazer o cateterismo cardíaco e as possibilidades cirúrgicas de seu câncer de seio estão sendo avaliadas no momento.

Discutiu-se inicialmente o quadro depressivo de base e o diagnóstico de luto patológico foi estabelecido. Elementos biográficos foram lembrados para ressaltar os enormes buracos existenciais da paciente e a discussão encaminhou-se para a psicodinâmica dos estados que envolvem a não superação da perda de pessoas significativas como neste caso e naqueles conhecidos como a culpa dos sobreviventes, nos quais pessoas não conseguem superar a perda de entes queridos mortos em tragédias em que elas sobreviveram. Finalmente discutiu-se como trabalhar situações de luto patológico em pacientes internados.

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