Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
 13.05.2004 Dr. Giorgio Trotto

Um homem de 59 anos, residente em nosso país desde seus 12 anos, veio trazido a um dos ambulatórios do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia por sua esposa, com quem está casado, e sem filhos, há 36 anos. O motivo do atendimento foi uma dificuldade em deambular acompanhada de dispnéia, ambos progressivos e de início há mais ou menos 3 anos. O exame de eletroneuromiografia foi sugestivo de doença do neurônio motor, e também foi encontrado um nódulo em um dos pulmões. Feita a hipótese diagnóstica de esclerose lateral amiotrófica paraneoplásica, o paciente foi imediatamente internado.
Já nesta primeira consulta a médica assistente notou o comportamento aflito da esposa do paciente. Ela se antecipava a seu marido dando todas as informações, praticamente não o deixando falar. Embora tendo aceitado a internação do seu marido, dele não conseguia separar-se para nada. Ficou o tempo todo com ele na enfermaria controlando e tentando participar até do trabalho da enfermagem, o que acabou criando uma certa antipatia da equipe para com ela. O quadro de dispnéia do paciente se agravou e foi necessário tranferí-lo para o CTI, onde as visitas são firmemente controladas. A esposa desesperou-se e passou a usar de todos os meios a seu alcance (sedução com presentes, manipulação de informações, choro e etc.) para ficar mais tempo com o marido. Quando não conseguia seu intento, passava a ameaçar a equipe com denúncias na mídia. A equipe fez algumas tentativas de abordagem da esposa, todas no sentido de oferecer tratamento psicológico e psiquiátrico para ajudá-la a aceitar a situação do seu marido. Todas fracassaram. Ela não conseguia escutar e falava sem parar sobre como apenas ela sabia cuidar do seu marido, que ele deveria ir para casa, que ela morrerá se ele vier a falecer e que ela conhecia pessoas que acabaram se suicidando nesta situação. Era patente seu estado desesperador, mas alguns membros da equipe desconfiavam que, no fundo, ela queria que o marido morresse.
Por outro lado, o paciente nunca mostrou nenhuma aflição com seu estado, que sabia ser muito grave e que vinha piorando. Sua única preocupação era a sua esposa. Internado no CTI, o tempo todo lúcido, traqueostomizado e entubado, pedia apenas para cuidarem dela, “que estava muito nervosa”.

Discutiu-se, inicialmente, a impressão, que acabou contaminando quase toda a equipe, de que todo aquele cuidado excessivo da esposa para com o marido era patológico e movido por desejos agressivos inconscientes para com ele, portanto patogênico para ele. A equipe compreendeu inicialmente o comportamento da esposa como sendo fruto de uma formação reativa defensiva em relação aos seus próprios desejos agressivos dirigidos ao marido. Em suma, a esposa foi vista inicialmente como um elemento patogênico, o que costuma engendrar comportamentos rejeitadores por parte da equipe.
Aprofundando-se a discussão, evidenciou-se a intensa união psicológica do casal, de tal forma que estava sendo a esposa, totalmente identificada com seu marido, que estava passando pela angústia de morte. Por isso o paciente não apresentava nenhum sinal de sofrimento mental. Foi a esposa que inicialmente negou a doença do marido e depois começou a oscilar entre negociar de todas as formas a vida do marido e se revoltar com a possível morte dele, etapas descritas por Elizabeth Klüber-Ross em seu livro Sobre a Morte e o Morrer. Portanto, naquele momento, era fundamental  entender-se melhor o comportamento da esposa: aquilo que parecia, como já dito, fruto de agressividade reprimida e transformada no oposto era, de fato, a expressão do desespero diante da ameaça de perda do marido, com quem estava inconscientemente identificada.
Feito o diagnóstico psicodinâmico, como lidar com esta situação de identificação maciça numa situação hospitalar, e que já estava interferindo no tratamento do paciente, foi discutido na parte final da reunião.

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