Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisora
 06.05.2004 Dra. Anna Sanders Quental

Uma senhora de 65 anos, viúva, com três filhos adultos, internou-se no Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia para realizar uma cirurgia de retirada de um tumor cerebral. Desde o primeiro momento em que foi abordada por um dos membros da unidade de Psicologia Médica do C.M.P. associada à enfermaria, queixou-se de estar abandonada por todos: pelos filhos, demais familiares e equipe médica. Mostrou-se bastante irritada com o fato de estar internada e desconfiava muito das intenções dos médicos para com ela. Achava que não estavam interessados em cuidar dela e sim em ter encontros sexuais, até mesmo bacanais na sala de reuniões. Temia ser vítima de abuso sexual à noite e na cirurgia quando sob efeito da anestesia geral, e, por isso, dizia não dormir e não querer operar.
Em muitos momentos expressou idéias suicidas e, em outros, falou em abandonar o tratamento, chegando mesmo, em determinado dia, a vestir-se para retirar-se do hospital. Durante praticamente todo o primeiro mês de internação ficava aguardando um familiar vir buscá-la. A todo custo queria voltar para casa.
A não desistência de seu terapeuta, seu interesse em entender o que a paciente estava passando que tanto a angustiava, a ponto de preferir não se tratar (e morrer), propiciou uma mudança no estado de humor da paciente. Deixando de estar irritada e agressiva, postura defensiva que geralmente tem o poder de induzir comportamentos e atitudes rejeitadoras por parte da equipe, a paciente revelou-se intensamente deprimida e desesperançada. Concomitantemente passou a falar de si, de sua história de vida e de como esta se relacionava com sua doença. Achava que seu tumor era uma conseqüência direta dos maus tratos recebidos de seu pai em sua infância. Além dos relatos de violência física, fez várias alusões metafóricas de ter sido vítima de abuso sexual pelo pai e/ou por um compadre deste. E daí vinha sua aversão ao hospital e aos médicos: emocionalmente, tudo ali lhe lembrava sua casa da infância. A experiência de sentir-se presa e vítima das pessoas que dela deveriam cuidar, vivida na infância, estava sendo revivida agora. A cena traumática infantil coloria completa e inconscientemente a situação atual engendrando o temor e a desconfiança de estar sendo vítima (novamente) de maus tratos e abuso, e induzindo-a a afastar-se de todos, familiares e médicos, criando o sentimento de abandono. Este é um exemplo vivo do que Freud chamou de transferência, fenômeno mental movido pela compulsão à repetição.

Discutiu-se, inicialmente, o entrelaçamento dos três temas trazidos pela paciente: o  tema do abandono, o do abuso sexual e o da doença. A discussão caminhou para o desejo de morrer (expresso através de idéias suicidas, de ser portadora de uma maldição, de querer abandonar o tratamento, do tom claramente de despedida de uma das últimas consultas) e a relação deste desejo com a conhecida síndrome de eutanásia. E, de fato, a cirurgia transcorreu sem problemas, mas a paciente contraiu pneumonia e veio a falecer no pós-operatório.
Em seguida, o tema do abuso sexual foi abordado. Diferenciou-se a forma de apresentação psicológica de um fato traumático realmente ocorrido das fantasias provenientes de desejos sexuais infantis, por vezes intensamente vividas, ressaltando-se que, embora diferentes, as duas situações são realidades no mundo mental e como tal devem ser consideradas na terapia. Finalmente, discutiu-se a maneira como a Psicologia Médica lida com o tema do abuso sexual.   

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