Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Resumo de Reunião Clínica
 
 Data Supervisor
 29.04.2004 Dr. Decio Tenenbaum


Uma mulher branca de 40 anos, casada e sem filhos, havia procurado um médico em sua cidade natal por sentir-se deprimida. Iniciou tratamento medicamentoso, durante o qual foi constatada a presença de um aumento na área tireoideana. Feito o diagnóstico de bócio nodular atóxico, iniciou tratamento, mas, “por falta de recursos lá”, acabou sendo encaminhada ao Rio de Janeiro para submeter-se à cirurgia (tireoidectomia parcial).
Internada no Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, passou a ser atendida por um  membro da unidade de Psicologia Médica do Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica associada à enfermaria. Acostumada a lidar com as tensões comumente presentes no pré-operatório, S. aproximou-se para iniciar o atendimento à C., a qual, segundo a enfermagem, estava sempre com “ar sério e conversava pouco com as outras pacientes”. S. foi surpreendida, ao coletar a “história da pessoa”, por um relato pungente de uma história de vida com um importante drama existencial relacionado à precariedade da identidade feminina e que, por essas coisas da vida, estava sendo reforçado por graves conflitos conjugais. C. não via nenhuma saída para as duas situações e realmente sentia-se mais do que deprimida, desesperançada a tal ponto que parecia não apresentar nenhum sinal de qualquer tensão comumente presente em pré-cirurgia. A falta de perspectivas quanto ao seu drama existencial sobrepujava a consciência do sofrimento do pré-operatório.

Partindo-se do tema da depressão discutiu-se, inicialmente, a medicalização excessiva decorrente de uma prática assistencial que busca a remoção de sintomas sem a necessária compreensão das situações de vida nas quais a doença se instalou. Abriu-se, então, o importante tema da depressão em pacientes orgânicos e o risco de se instalar a síndrome de eutanásia por indução iatrogênica.
Abrindo-se espaço para a fala, a paciente pôde elaborar alguns aspectos de sua crise existencial, melhorar a auto-estima, legitimando, ao adquirir maior consciência, seu lugar na vida. A cirurgia e o pós-operatório transcorreram sem nenhuma complicação e, com apenas mais três encontros (a paciente precisava voltar à sua cidade natal), a dificuldade conjugal decorrente de um problema orgânico do marido também pôde ser melhor encaminhada.
Abrindo-se espaço para a fala, ampliando-se o espaço de segurança consegue-se evitar os riscos de induções iatropatogênicas configuradas na síndrome de eutanásia.

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