Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica
Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro

Reflexões

Uma boa dose de intimidade entre pais e filhos

       

Percebo que, hoje em dia falta uma boa dose de intimidade nas relações. Isso não é algo que se possa comprar na farmácia, nas lojas ou numa viagem à Índia. A intimidade nas relações parte da que temos com nós mesmos. Saber o que somos, o que gostamos, o que queremos e como lidamos com o mundo é fundamental para estabelecimento de uma relação íntima com aqueles que amamos.

Falo de uma intimidade que não é ficar pelado na frente dos filhos, tomar banho junto ou ir ao banheiro de porta aberta, e sim daquela ponte sólida que construímos com o outro e que facilita o intercâmbio. É aquela ligação que as mães têm com seus bebês nos primeiros meses de vida e que possibilita um entendimento do que eles estão passando, quando acolhê-los, quando lhes dar limites, ou quando alimentá-los. Essa ligação muitas vezes se perde com o corre-corre do dia a dia ou com os desafios  de cada idade.

Quanto mais nos conhecemos, mais conseguimos ver o outro como ele é, sem que ele vire nosso espelho. É tão fácil enxergar os filhos como uma imagem de nossas dificuldades ou de nossos desejos frustrados. Difícil é percebê-los como seres diferentes de nós, com características, desejos e percursos próprios. 

Não é preciso passar o dia inteiro junto para manter a intimidade. Ser mãe full time também não é receita de sucesso já que estar atenta às necessidades físicas (banho, alimentação, sono etc) não significa estar atenta às necessidades emocionais. É comum ficar tão assoberbada de tarefas que não sobra espaço para de fato enxergar o outro.

Se seu filho não quer ir à escola, qual é o motivo? Dificuldades acadêmicas, conflitos com os amigos, problemas em se separar de você, cansaço por sobrecarga? Uma boa dose de intimidade certamente encurta o caminho para a resposta certa.

Participar da rotina, das amizades, do lazer, das alegrias, das frustrações, dos medos e desejos, são os tijolos para a construção de relações íntimas, sólidas e certamente gratificantes.

Roberta Beczkowski

            Limites e Cia Ltda

 

 

Por que será que, a cada geração que passa, mais aumenta a dificuldade de impor limites às crianças? Dizer o quanto eles são importantes - não só para a vida em sociedade, como para a estruturação do indivíduo - embora seja chover no molhado, no entanto não deixa de ser verdade.

Vivemos em um mundo onde as pessoas buscam sentir-se cada vez menos limitados e, de fato, a humanidade tem encontrado meios de superar diversas limitações. Há não muitos anos, viajar para outros países era um luxo para poucos e acontecia, no máximo, duas vezes ao ano. Hoje em dia, há quem mude de continente toda semana. As barreiras nos sistemas de comunicação quase não são mais impedimentos. Os avanços da medicina dão margem a pensar que tudo é possível, inclusive adiar o envelhecimento e a morte.

Adultos também ficam seduzidos pela fantasia de que, com dinheiro, nada é inatingível. Assim, dar conta de nossas limitações é motivo de depressões profundas, principalmente se não aprendemos a lidar com elas desde que nascemos. No entanto o que quase não é dito é que, mesmo para crianças, achar que podem tudo, gera angústias inimagináveis.

A fantasia e a realidade já estão constantemente emboladas. Acreditar que podem tudo significa conseguir satisfazer TODAS as suas vontades: tanto boas, quanto más. No pensamento infantil, “se ninguém consegue barrar o que eu desejo, o que acontece quando eu fico com muita raiva de alguém?” Ou seja, os pequenos se sentem muito poderosos, bem como, muito destrutivos. É bom lembrar que alguns dos maiores medos infantis passam por esse tema.

Outro fator importante que dificulta essa tarefa fundamental é o fato de que gera sofrimento: não só nos filhos, como nos próprios pais. Não se pode esquecer que o sofrimento hoje é quase uma doença, que, ao sinal dos primeiros sintomas, deve ser combatida imediatamente com doses regulares de remédios. Resultado: o que dói fica sufocado e escondido não só aos olhos dos outros como aos de nós mesmos.

Algumas mães veem essas pequenas doses de frustração como aqueles xaropes ruins necessários para que a gripe não se transforme em pneumonia. Já outras não conseguem suportá-las, pois remete a um gigantesco sofrimento próprio. No entanto, como sempre repete uma grande amiga, Mary Poppins já nos dizia: just a spoonful of sugar helps the medicine go down” (uma colher cheia de açúcar ajuda o remédio a descer).

Moral da história não é possível  evitar que nossos filhos sofram. Dessa forma, cabe a nós estar ao lado deles para ajudá-los a suportar os limites que a vida lhes impõe.

                                                                                                          Roberta Beczkowskii